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Neste post
- O que é o Día de los Muertos e quando ele acontece
- A ofrenda: o que vai no altar e o que cada coisa significa
- A Catrina, o xoloitzcuintle e os outros símbolos da festa
- O vocabulário e as frases da data, com áudio do México
O Día de los Muertos é a festa mexicana em que as famílias recebem de volta os seus mortos. Tem flores laranja, pão doce, velas, música e a comida preferida de quem partiu. Quem vê pela primeira vez leva um susto, porque a gente aprendeu que morte combina com silêncio. No México, combina com festa.
Eu sou apaixonada por essa data! Hoje eu te mostro quando ela acontece, o que vai na ofrenda (o altar) e quem é a famosa Catrina. E, claro, o espanhol que vem junto, com áudio em todas as palavras e frases, no sotaque mexicano, pra você ouvir e repetir.
O que é o Día de los Muertos
Pra tradição mexicana, nesses dias as almas dos mortos ganham licença pra voltar do além e passar umas horas com a família. Só que a viagem é longa, então elas precisam ser bem recebidas, com o caminho iluminado e a mesa posta. É pra isso que serve a ofrenda, o altar que eu explico daqui a pouco.
Por isso, no Día de los Muertos, o clima é de reencontro. As famílias limpam e enfeitam os túmulos, cozinham o prato que o avô adorava e colocam a foto dele no altar. Muitas passam a noite no cemitério, comendo e contando histórias. Já pensou fazer piquenique no cemitério com a família inteira? Lá isso é normal! Você conseguiria participar disso? A morte vira assunto de conversa, de piada e até de poema, e quem já morreu continua fazendo parte da família.
Día de Muertos ou Día de los Muertos?
No México, o nome mais comum é Día de Muertos, sem o los. Día de los Muertos é como a festa ficou conhecida fora, principalmente nos Estados Unidos, e daí chegou até nós. Os dois estão certos! Mas se um dia você estiver num papo com mexicanos, solte um Día de Muertos que vai soar bem mais local.
E não é só no México que se comemora. A celebração também acontece na Guatemala, em partes da América Central e nas cidades dos Estados Unidos com muitos mexicanos, como Los Angeles e San Antonio. Mas foi o México que fez dela um símbolo nacional.
Não é Halloween, e também não é Finados
Como cai bem perto do Halloween, muita gente acha que é a versão mexicana do dia das bruxas. Não é! E também é bem diferente do nosso Dia de Finados, mesmo caindo no mesmo dia. Olha só:
| Halloween | Finados (Brasil) | Día de Muertos (México) | |
|---|---|---|---|
| Quando | 31 de outubro | 2 de novembro | do fim de outubro a 2 de novembro |
| Clima | fantasia e susto | luto e silêncio | festa e reencontro |
| Os mortos | assustam | são lembrados | voltam pra visitar a família |
| Símbolo | abóbora | crisântemo e vela | cempasúchil e Catrina |
Quando é o Día de los Muertos
Os dias principais do Día de los Muertos são 1º e 2 de novembro. O dia 1º é dos angelitos, as crianças que morreram, e o dia 2 é dos adultos. Na prática, a festa começa antes. No fim de outubro as casas já estão com as ofrendas montadas, e os mercados ficam cheios de flores e de pão de muerto.
Em várias regiões, cada dia da última semana de outubro recebe um grupo diferente de almas. Tem dia pra quem morreu de forma trágica, dia pras almas esquecidas, que ninguém mais lembra, e, em alguns lugares, até dia pros animais de estimação. O calendário muda de cidade pra cidade, mas ninguém fica sem ser recebido. Ninguém mesmo.
O desfile que nasceu num filme do 007
O grande desfile do Día de Muertos na Cidade do México, com carros alegóricos e Catrinas gigantes, parece tradição antiquíssima. Mas não é! Ele não existia até 2015, quando o filme 007 contra Spectre abriu com um desfile inventado pela produção. Muita gente achou que o desfile existia, e no ano seguinte, em 2016, a cidade organizou o primeiro de verdade, com 250 mil pessoas. Hoje ele faz parte da festa.
Origem e história do Día de los Muertos
A raiz é bem mais antiga que o México. Os povos que viviam na região antes da chegada dos espanhóis, como os mexicas (os astecas), já tinham festas pros mortos. Pra eles, a morte era só uma parte do ciclo da vida. Bem diferente da nossa ideia, né? Quem morria fazia uma viagem até o Mictlán, o mundo dos mortos, governado pelo casal Mictlantecuhtli e Mictecacíhuatl, a “senhora da morte”.
Essas festas aconteciam em outra época do ano. Quando os espanhóis chegaram com o catolicismo, a celebração indígena foi se misturando com o Dia de Todos os Santos (1º de novembro) e o Dia de Finados (2 de novembro). Daí nasceu essa festa mestiça, meio indígena e meio católica, que existe até hoje.
Em 2003, a UNESCO reconheceu as festas indígenas dedicadas aos mortos como obra-prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade. Em 2008, elas entraram na lista oficial do patrimônio cultural imaterial.
A ofrenda: o que vai no altar e por quê
A ofrenda é o coração do Día de los Muertos. É um altar que a família monta em casa (ou no túmulo) pra receber quem volta, e nada ali está por acaso. Ela pode ter dois andares, que representam o céu e a terra, ou três, com o mundo dos mortos embaixo, e tem família que monta até sete. Os andares variam, mas os elementos se repetem.

As fotos (los retratos) mostram pra quem é a ofrenda. Sem foto, a alma não sabe que foi convidada! As flores de cempasúchil, laranja e com um perfume forte, mostram o caminho até a casa. Muita família faz uma trilha de pétalas da porta até o altar. As velas (las veladoras) iluminam a volta.
Também não pode faltar um copo de água, pra matar a sede depois da viagem, e um pouco de sal, que purifica. Pra comer, tem o pan de muerto, um pão doce e redondo com tirinhas da própria massa em forma de ossos por cima. É de comer rezando pra sobrar pro dia seguinte, de tão bom! Ao lado dele vão o prato e a bebida preferidos de quem volta, que podem ser tamales, mole, chocolate quente, pulque ou até uma cervejinha.
Pra enfeitar, entram as calaveritas de açúcar. São caveirinhas coloridas que muitas vezes levam um nome escrito na testa, às vezes de gente viva, só de brincadeira. E tem o papel picado, aquelas bandeirinhas de papel recortado que balançam com o vento. Por último, se queima copal, uma resina que funciona como incenso e limpa o ambiente. Pronto, a casa está preparada.
Os quatro elementos da natureza
Repare que uma ofrenda tradicional reúne os quatro elementos da natureza. A água está no copo, o fogo nas velas, a terra nas flores e na comida, e o vento no papel picado, que se mexe com qualquer brisa.
A flor da festa é o nosso cravo-de-defunto
Você conhece essa flor, sim! O cempasúchil é uma planta mexicana (Tagetes erecta) que no Brasil a gente chama de cravo-de-defunto ou cravo-africano. Olha que coincidência, gente! O nome mexicano vem do náhuatl, a língua dos astecas, e quer dizer “vinte flores”, por causa do monte de pétalas. Pra pronunciar, fale sem-pa-SÚ-tchil, com a força no “su”.
La Catrina e os outros símbolos

A Catrina é aquela caveira elegante, de chapéu largo com plumas e flores, que virou o rosto da festa. E sabia que ela nasceu como crítica? No começo do século XX, o gravurista José Guadalupe Posada desenhou a Calavera Garbancera, uma caveira de chapéu chique, pra rir de quem fingia ser europeu e esquecia as próprias raízes.
Anos depois, o pintor Diego Rivera (o marido da Frida Kahlo) colocou a figura num mural, de vestido longo, e a batizou de Catrina. Hoje, no fim de outubro, muita gente no México pinta o rosto de Catrina. Fica lindo.
Outros personagens que aparecem por toda parte:
- O xoloitzcuintle, um cachorro mexicano quase sem pelo. Pros astecas, era ele quem guiava as almas na travessia até o Mictlán. Fala-se sho-lo-its-KUIN-tle, e todo mundo chama de xolo.
- Os alebrijes, bichos fantásticos e coloridíssimos, misturas de dragão, gato, águia e o que mais a imaginação mandar. Foram criados nos anos 1930 pelo artesão Pedro Linares, que disse ter sonhado com eles.
- As borboletas-monarca, que chegam aos bosques do centro do México justo no começo de novembro, depois de voar milhares de quilômetros desde o Canadá. Diz a tradição que nelas vêm as almas.
O X das palavras mexicanas
Repare que o x do México tem vários sons. Em México e Oaxaca, soa como o nosso R de “rato” (o j espanhol). Em xoloitzcuintle, soa “sh”. Em Xochimilco, soa “s”. É herança do náhuatl e da grafia antiga do espanhol, e confunde até nativo de outros países!
O vocabulário do Día de los Muertos
Separei as doze palavras que mais aparecem no Día de los Muertos. Toque num cartão pra ouvir só aquela palavra, ou no play pra ouvir todas em sequência. E pra testar a memória, ligue Esconder o espanhol.
En la ofrenda
Los adornos
Los que vuelven
Cuidado com o panteón, que engana o brasileiro! No México, ele é o cemitério, e não um templo grego. Em outros países se diz cementerio, que os mexicanos também entendem.
Frases pra usar no Día de los Muertos
Toque no alto-falante e repita junto!
Este año vamos a poner la ofrenda en la sala.
Este ano vamos montar a ofrenda na sala.
Esta foto es de mi abuela. Le encantaba el chocolate.
Esta foto é da minha avó. Ela adorava chocolate.
Le pusimos su comida favorita: tamales y atole.
Colocamos a comida preferida dela: tamales e atole.
Mañana vamos al panteón a limpiar la tumba.
Amanhã vamos ao cemitério limpar o túmulo.
Las flores de cempasúchil guían a las almas.
As flores de cempasúchil guiam as almas.
Te recordamos con mucho cariño.
Lembramos de você com muito carinho.
¡Feliz Día de Muertos!
Feliz Dia dos Mortos!
Como o mexicano fala da morte
O mexicano tem intimidade com a morte, e isso aparece na língua. Ela tem apelido, e não é um só! Os mais comuns são la Calaca, la Pelona, la Huesuda, la Flaca e, claro, la Catrina. E pra dizer que alguém morreu, sem drama, existem expressões que são uma graça.
Se lo llevó la Pelona.
A Pelona levou ele.
Estiró la pata.
Esticou a pata (bateu as botas).
Colgó los tenis.
Pendurou os tênis (bateu as botas).
Ya se petateó.
Já foi pra esteira (já morreu).
O petate é a esteira de palha onde antigamente se dormia e também se enrolava o corpo de quem morria. Por isso petatearse virou “morrer”. Só toma cuidado, porque são expressões informais, de brincadeira. Num velório, use falleció (faleceu).
Calaverita literaria: o poema que brinca com a morte
No fim de outubro, os jornais, as escolas e as redes do México se enchem de calaveritas literarias. São poeminhas rimados em que a morte vem buscar alguém (um político, um professor, o chefe) e a vítima escapa ou não, sempre de um jeito engraçado. A brincadeira começou nos jornais do século XIX, como epitáfios de mentira pra gente viva. E as gravuras de Posada nasceram justamente pra ilustrar esses versos.
Eu escrevi uma pra vocês, e é claro que ela é sobre estudar espanhol.
Estaba la Calaca flaca / buscando a quién llevar;
A Calaca magrinha estava / procurando quem levar;
vio a un alumno estudiando / y no lo quiso tocar.
viu um aluno estudando / e não quis nem encostar.
—Este todavía no —dijo—, / le faltan verbos por conjugar.
— Esse ainda não — disse —, / ainda tem verbo pra conjugar.
Viu só? Estudar espanhol aumenta a expectativa de vida! Se você quer começar pelos verbos, o guia de verbos em espanhol é um ótimo lugar. E se escrever a sua calaverita, me manda no direct, que eu adoraria ler.
Viva – A Vida é uma Festa
Quer entender o clima do Día de los Muertos em uma hora e meia? Assista a Viva – A Vida é uma Festa (Coco, no original), da Pixar. É a história do Miguel, um menino que quer ser músico e vai parar no mundo dos mortos justo no Día de Muertos. Tem ofrenda, ponte de pétalas de cempasúchil, um xolo (o Dante), um alebrije (a Pepita) e muita música mexicana. Eu choro toda vez! O filme ganhou o Oscar de melhor animação e o de melhor canção, com Recuérdame, que quer dizer “lembre-se de mim”.
E já que o assunto é música mexicana, aproveita pra conhecer a história dos mariachis, que tocam em tudo quanto é festa, inclusive no cemitério.
Assistir em espanhol, com legenda em espanhol, é um treino e tanto. Eu explico como fazer isso sem se perder no post sobre como aprender espanhol com séries.
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La flor naranja de las ofrendas es el…
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¿Quién dibujó la Calavera Garbancera?
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Pra escrever este post, conferi o verbete Día de Muertos da Wikipédia em espanhol, a página da UNESCO sobre as festas indígenas dedicadas aos mortos, a reportagem O que é o Dia dos Mortos? da National Geographic Brasil e, sobre a flor, o Horto Didático da UFSC. As ilustrações usam o Fluent Emoji, da Microsoft (licença MIT).
E na sua família, como vocês lembram de quem já foi? Me conta no direct do Instagram! ¡Feliz Día de Muertos!
Professora de espanhol · Letras/UnB · mais de 10 anos de aulas
Formada em Letras pela UnB (Universidade de Brasília), dando aulas de espanhol há 10 anos.
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